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A Crise de Confiança na Justiça Brasileira: O Que Pensa o Cidadão Comum?
Antônio Damasceno de Aquino e Jacques Malka Y Negri
27/1/2026

Uma pesquisa revela percepções alarmantes sobre acesso, imparcialidade e eficiência do sistema judicial brasileiro - e a análise aponta para causas estruturais profundas

Você confia no sistema de Justiça brasileiro? Se a resposta for "não" ou "muito pouco", você não está sozinho. Uma pesquisa recente realizada pelo Escritório com um grupo pequeno, mas socioeconomicamente diversificado de brasileiros - incluindo empresários, profissionais autônomos, trabalhadores de serviços, estudante de Direito e artista, com idades entre 26 e 79 anos - revela um quadro preocupante: a população desconfia profundamente da Justiça do país.

O retrato da desconfiança

Entre os dias 14 e 19 de janeiro de 2026, brasileiros de diferentes perfis foram questionados sobre suas percepções acerca do sistema de Justiça. O resultado? Uma nota média de apenas 3,22 em uma escala de 0 a 10 para a confiança no Judiciário. Mais de 20% dos entrevistados deram nota zero.

Esse número não é apenas estatística fria. Ele representa frustração, descrença e a sensação de que o sistema, que deveria proteger direitos, falha em sua missão fundamental.

"Justiça para Todos"? Nem sempre

Quando perguntados se todas as pessoas, independentemente de sua condição financeira, têm as mesmas chances de obter justiça no Brasil, a resposta foi quase unânime: 89% disseram não.

Um empresário de 67 anos foi direto: não acredita em igualdade de acesso. Uma fisioterapeuta de 52 anos foi ainda mais enfática: "Claro que não". A percepção de que dinheiro e influência fazem diferença nos tribunais está enraizada no imaginário popular.

Essa percepção, embora lógica, não se restringe ao Brasil. Mesmo países de primeiro mundo, frequentemente classificados como "high trust societies", não conseguiram eliminar completamente esse fenômeno - apenas o tornaram menos evidente. Portanto, o tratamento diferenciado a pessoas com maior poder econômico e influência não pode ser considerado a origem principal do sentimento de insatisfação, mas sim mais um elemento agravante em um contexto já fragilizado.

Esse dado é especialmente grave porque ataca o princípio básico de qualquer Estado Democrático de Direito: a igualdade perante a lei. Se as pessoas não acreditam que serão tratadas com isonomia, a legitimidade de todo o sistema judicial fica comprometida.

A morosidade que mata a esperança

Se há um ponto de consenso absoluto entre os entrevistados, é este: a Justiça brasileira é lenta. Todos classificaram o sistema como "lento" ou "muito lento". Nenhum, absolutamente nenhum, considerou a velocidade adequada.

E as histórias pessoais ilustram bem essa percepção. Uma das entrevistadas relatou que seu processo de divórcio levou 13 anos para ser concluído - e não foi resolvido pela Justiça, mas por acordo entre as partes. Treze anos de vida em suspenso, esperando uma solução que nunca veio.

Mesmo quando o resultado final é favorável, a demora excessiva compromete a satisfação. Como disse uma doméstica de 45 anos: "Fiquei satisfeita com o resultado, mas não com a demora do processo".

A morosidade, em tese, poderia ser entendida como garantia de que os processos são analisados de forma cautelosa e criteriosa - o que deveria aumentar a confiança no sistema. Contudo, o problema surge quando essa lentidão se combina com a percepção de erros recorrentes. Para o público em geral, a demora seria mais aceitável caso resultasse em menos equívocos. Entretanto, não é essa a percepção predominante: a justiça é vista como lenta e, ainda assim, responsável por inúmeras falhas.

A morosidade não é apenas um problema técnico. Ela corrói a confiança, esgota emocionalmente as partes e, em muitos casos, transforma a vitória judicial em uma vitória de Pirro.

Imparcialidade em xeque

Outro dado preocupante: 67% dos entrevistados não acreditam que os juízes decidem os casos de forma imparcial, sem favorecer pessoas com mais dinheiro ou influência.

Um estudante de Direito de 26 anos foi pragmático: "Depende muito do juiz. Alguns sim, outros não". Essa resposta revela algo importante: mesmo dentro do próprio sistema, há o reconhecimento de que a imparcialidade não é garantida.

Quando a população não confia na neutralidade de quem julga, a função jurisdicional perde seu sentido. Afinal, de que vale recorrer ao Judiciário se já se parte da premissa de que o jogo está viciado?

A linguagem como barreira

"Você considera que a linguagem usada nos tribunais e documentos judiciais é compreensível para o cidadão comum?" 78% responderam não.

O juridiquês, esse vocabulário hermético que nós, advogados, tanto utilizamos, não é apenas um detalhe estilístico. É uma barreira real que afasta o cidadão da compreensão de seus próprios direitos e processos.

Como pode alguém confiar em um sistema que não consegue entender? Como pode exercer plenamente sua cidadania quem não compreende as decisões que afetam sua vida?

E o futuro? Pessimismo predomina

Quando perguntados sobre o futuro da Justiça brasileira nos próximos cinco anos, as respostas foram desanimadoras:

  • 33% acreditam que piorará
  • 33% acham que permanecerá como está
  • 22% dizem que depende do governo
  • Apenas 11% demonstraram esperança de melhora

É um voto de desconfiança não apenas no presente, mas também no futuro. A população não vê luz no fim do túnel.

Um fenômeno intrigante: Quando a experiência positiva não basta

Um dado particularmente revelador emergiu da pesquisa: mesmo alguns entrevistados que obtiveram êxito em suas demandas judiciais - inclusive pertencentes a classes sociais mais carentes - mantêm uma visão pessimista do sistema quando questionados sobre sua percepção geral e suas expectativas futuras.

Se nem experiências pessoais positivas alteram essa visão negativa, o que leva os brasileiros a enxergarem o Judiciário de forma tão desfavorável?

A superexposição midiática e a mudança de percepção

Durante as entrevistas, observou-se que as pessoas têm dificuldade em separar o sistema de Justiça da política nacional. Isso pode estar relacionado ao constante foco da mídia em decisões judiciais de instâncias superiores, especialmente em casos de grande repercussão política.

Porém, há algo mais profundo em jogo: mudou a percepção popular sobre o que é a justiça e onde ela se encontra. Ao se perguntar à população sobre a Justiça, raramente surgem referências aos tribunais locais - onde a maioria das pessoas que têm alguma experiência com o Judiciário efetivamente interage. Em vez disso, o foco recai sobre as cortes superiores, com as quais o cidadão comum dificilmente terá contato direto.

Há vinte anos, seria incomum que um leigo soubesse nomear ministros do Supremo Tribunal Federal. Atualmente, observa-se desde profissionais de diferentes áreas debatendo seus nomes quase como se fossem escalações de um time de futebol. Os onze ministros tornaram-se amplamente conhecidos.

Quando a instituição vira indivíduo

Essa visibilidade não é necessariamente positiva. Por definição, juízes não deveriam estar sob os holofotes da opinião pública dessa maneira, pois isso facilita a associação instintiva entre membros do Judiciário e figuras políticas - o que é extremamente prejudicial tanto para a imagem dos tribunais quanto para a percepção da justiça como um todo.

Tomemos como comparação as Forças Armadas. Sabemos de sua existência, de seu papel e de sua importância. A vida de todos os brasileiros depende, em certo grau, dessa instituição. As Forças Armadas realizam diariamente atividades que impactam a sociedade, como patrulhamento de fronteiras e auxílio em casos de catástrofes naturais. Ainda assim, não observamos grandes repercussões públicas em torno de suas ações cotidianas. Por quê?

Porque, para o senso comum, uma instituição funciona; já um indivíduo tem vontades próprias. O indivíduo é mais facilmente percebido como tendencioso.

Enquanto as Forças Armadas são vistas como uma instituição, a Justiça passou a ser percebida como um conjunto de indivíduos - e daí decorre parte significativa da desconfiança em relação ao Judiciário. Ao pensar na justiça, mesmo em instâncias inferiores, a imagem que surge na mente da população não é a de uma instituição regida por princípios, mas sim a de pessoas com interesses próprios.

Curiosamente, décadas atrás, ocorria o oposto: as Forças Armadas eram vistas como indivíduos com interesses particulares, o que gerava desconfiança generalizada. A história, ao que parece, tem suas ironias.

É possível reverter esse quadro?

Diante desse cenário, surge a pergunta inevitável: é possível que o Judiciário volte a ser visto como uma instituição de princípios, despersonalizada e confiável?

A resposta, infelizmente, parece ser não. O retorno a uma visão impessoal da justiça por parte da população parece absolutamente improvável. A razão disso está no ambiente de disseminação de informações.

Há algumas décadas, a circulação de notícias era extremamente centralizada, concentrada nas mãos de grandes empresas de mídia tradicional, capazes de direcionar o discurso popular com relativa facilidade. Hoje, entretanto, a difusão de informações é profundamente descentralizada. Ainda que a mídia tradicional reduzisse a superexposição do Judiciário, a demanda por esse tipo de conteúdo permaneceria e seria facilmente suprida por pequenos produtores de mídia no ambiente descentralizado da internet e das redes sociais.

Banir redes sociais está fora de cogitação em qualquer regime democrático. Assim, o Judiciário terá de se adaptar a essa nova realidade - e esse será, provavelmente, seu momento mais delicado, pois estará sob constante escrutínio popular. Qualquer ato de seus membros, quando exposto aos holofotes, tem o potencial de desgastar ainda mais a imagem da justiça como um todo.

Conclusão: É preciso ouvir o cidadão

Embora esta pesquisa tenha ouvido um grupo reduzido de pessoas, a diversidade de perfis - diferentes idades, profissões e classes sociais - e a consistência das respostas não deixam dúvidas: há uma crise de confiança profunda entre a população e o sistema de Justiça brasileiro. Morosidade, percepção de desigualdade, questionamento sobre imparcialidade e distanciamento pela linguagem compõem um quadro que exige reflexão urgente.

Como advogado, vejo esses dados como um alerta. Não basta termos leis bem escritas ou juízes tecnicamente preparados se a população não confia no sistema. A legitimidade da Justiça não vem apenas da letra da lei, mas da crença de que ela funciona para todos.

É fundamental que o Judiciário, a advocacia e toda a comunidade jurídica olhem para essas percepções não como meras críticas, mas como oportunidades de melhoria. Aproximar a linguagem, acelerar processos, garantir tratamento isonômico e demonstrar imparcialidade não são favores - são obrigações de um sistema que se quer democrático.

Porém, precisamos ser realistas quanto aos desafios estruturais. A superexposição midiática do Judiciário e a personalização da Justiça são fenômenos irreversíveis no atual ambiente informacional. O sistema terá que aprender a operar sob escrutínio constante, mantendo sua integridade institucional mesmo quando seus membros se tornam figuras públicas.

O cidadão já falou. Resta saber se a Justiça está disposta a ouvir - e se conseguirá se adaptar aos novos tempos sem perder sua essência institucional.

Sobre a pesquisa: Realizada entre 14 e 19 de janeiro de 2026, com um grupo reduzido, mas socioeconomicamente diversificado de entrevistados, incluindo profissionais de diferentes áreas (empresários, profissionais autônomos, trabalhadores de serviços, estudante de Direito e artista), com idades entre 26 e 79 anos e variados níveis de escolaridade. As entrevistas foram conduzidas de forma neutra, sem interferência nas respostas.

Antônio Damasceno de Aquino – Acadêmico de Direito

Jacques Malka Y Negri – Advogado

27/01/2026